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    segunda-feira, abril 20

    Ei-la!

    Quando desci do ônibus executivo que me levou de Fortaleza até Jijoca, não imaginava o impacto fulminante de halls ao encarar, ainda meio sonada, o capeta em 4x4. E antes fosse isso um novo tamanho de foto, mas não... A jeringonça na qual eu deveria embarcar para mais uma hora e meia de viagem, cheia de solavancos, no meio do nada, era uma espécie de pau-de-arara com tração nas quatro rodas.

    Na foto, com sol, dia claro, ela é até bonitinha. Mas só eu sei o que passei dentro daquilo...

    Quando estou nervosa, uma das duas coisas se sucede: se eu não começo a rir, num incontrolável ataque de bobeira, começo a divagar quase histericamente. Foi a primeira vez que ambas aconteceram ao mesmo tempo, inacreditavelmente, tamanho era o meu estado de nervos.

    A noite no meio do nada é clara. Mas o breu engole qualquer coisa que possa estar a mais de três metros adiante do seu nariz. Na beira da estrada de terra batida e muitas poças gigantescas de água que a trapizomba vencia bravamente, algumas casinhas simples, com rede na varandinha e a maioria com uma enorme parabólica no teto, davam a impressão que não, não era tãããão o fim do mundo assim.
    Mas depois da primeira meia hora, as casas somem. Sobra o nada.

    Eu acreditava que aquele caminho não me levaria para lugar nenhum. Teve um momento em que pensei em levantar e falar pro motorista: "Amigo, falassério! Nem fudendo você sabe onde está passando. Confessa logo que tá perdido e já estamos andando em círculos!"

    Mas, enfim, tinha mais um monte de gente no pau-de-arara. Aparentemente tranquilos. Me perdi em pensamentos. Primeiro, cheguei a filosofar: se forró era uma aliteração para a festa que os americanos criaram quando se basearam no nordeste do país durante a segunda guerra (ou coisa parecida), a chamada for all, certamente que ó, xente, vinha de oh, shit.

    E oh, shit era quase um mantra na minha cabeça. "Quê que eu tô fazendo aqui?" foi outro pensamento recorrente. O desespero aumentava tanto que, fortuitamente, passou pela minha cabeça "pra quê que eu fui voltar com esse maluco?"... Sem sacanagem, se o motorista virasse pra trás e me mandasse um "dá ou desce"... eu dava amarradona!

    Na rádio que habita minha cabeça, o maior sucesso do momento foi 'oh jardineira por que estás tão triste?...'

    Até que a estradinha de terra batida vira uma trilha de terra batida no meio do mato. E antes que ela se transformasse, no último trecho, em uma trilha de areia (isso mesmo, uma trilha de areia e calcário que, com sorte, o motorista não pegaria para evitar atolar) que permeia o mar em váááários quilômetros, no Parque Nacional de Jericoacoara, começa uma chuva torrencial.

    Se dava para ver algo três metros adiante, a festa tinha acabado. O toró aumentava. Eu pensava que nada pior poderia acontecer... mas tem a lei de murphy, e começou a chover DENTRO da jardineira! Ficava cada vez mais ensopada e apavorada. Um pouquinho mais adiante, o carro para e o motorita desce. Aí, camaradas, tive certeza: fudeu!

    Acontece que no meio dos 23km do Parque Nacional de Jericoacoara tem um tal de Riacho Doce, um braço de água doce que desce de uma das lagoas locais para o mar. E é grande, o bicho. Com a chuva, tinha mais água. O motorista teve de descer para ver se dava para passar sem atolar. Imagina só, passar a noite ao relento, sob a chuva, toda molhada e ainda por cima, atolada! Enfim, deu tudo certo. O sujeito encontrou um trecho seguro e passagos, com alguma dificuldade, pelo riacho, jgando água para todos os lados.

    Sabia, de alguma forma, que do meu lado direito estava o mar aberto. Parei de olhar pra lá porque tinha quase certeza de que se ficasse olhando muito veria se formar uma tsunami que nos engoleria. Do jeito que tava brabo, era só o que faltava mesmo.

    Só sosseguei quando aquele trecho sinistro acabou e entramos na vila de Jeri. Já passava das duas da matina. Descemos na Rua Principal, onde não dava mais para carro passar e ficamos ali esperando o Ricardo, lá da pousada, nos resgatar. É, porque a pousada é nova, funciona há um ano, e ninguém sabia ao certo nos orientar para chegar lá.

    A gente tava pertinho, pertinho. Foi só para tirar o coitado da cama no meio da noite e debaixo de chuva, ainda por cima..
    ****
    Um dia eu volto a Jeri, mas nem fudendo eu viajo de noite outra vez...
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    Item Reviewed: Ei-la! Rating: 5 Reviewed By: Débora Thomé
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