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    segunda-feira, novembro 29

    De volta ao sonho

    Márcio Mará

    Faz uma semana que um cara iluminado passou pelo Brasil antes da invasão do Alemão. Não, não era o bravo herói do cinema, o capitão Nascimento, travestido de comentarista de polícia da Globo. A tropa de elite do cabeludo é outra. O homem é aquele mesmo que, em 21 de abril de 1990, mostrou como se chega ao topo da montanha sem uma bala no gatilho. Num Maracanã abarrotado de 184 mil pessoas impressionadas com a cena, Paul McCartney flutuava com o seu piano no palco. De estúpido, não tinha nada. "The fool on the hill" foi a grande hipnose, o momento alto - literalmente - daquele considerado o show inesquecível para a maioria presente. Vinte anos depois, agora Sir, o astro beatle que alcançou a fama e a glória como nenhum outro mortal do mundo da música retornou ao Brasil para reencontrar os velhos fãs e mostrar aos mais jovens o porquê de ser mito. Dessa vez, com os pés firmes no chão, pisou fundo na história.

    Em Porto Alegre e São Paulo, Paul renovou o visto. No segundo dia na capital paulista, no Morumbi, deu um pequeno tempo na pontualidade britânica. Permitiu-se atrasar 15 minutos - provavelmente por pena daqueles que enfrentaram maratona de horas no engarrafamento com chuva - para dar a largada. "Magical mistery tour" pareceu escolhida a dedo. A partir daí, cada um dos 64 mil pagantes embarcou na "vibe" pessoal. Teve mistura de choro, riso... pulos e muita emoção.

    Os gritos de "Jet", da fase dos Wings, fizeram a viagem seguir, sem problemas. "All my loving" e "Got to get you into my life" foram a senha de que Sir Paul ia tirar os Beatles do baú. O bom molho da mistura da quadra fez o show decolar. Foram duas horas e 50 minutos com o velhinho de 68 anos no comando. Afinal, o cara montou com John Lennon, George Harrison e Ringo Starr a maior banda do planeta. Depois, com a mulher, Linda, fez outra de respeito, entre as melhores dos anos 70. O domínio do palco era total. "Chove, chuva", dizia, lembrando Jorge Ben Jor, para logo depois fazer a espirituosa rima do português com o inglês: "Tudo bem in the rain?"

    Graçavão by Feroli

    A chuva já não caía mais quando a menina Michelle, de 18 anos, nome-título de bela música dos Beatles, chorou de emoção com "Here, today", homenagem de Paul ao amigo e parceiro John. Longe de ser das melhores do beatle, crescia naquele momento e ganhava seu pedaço no coração da jovem, bem como a lendária "Blackbird", do "White Album". Essa talvez seja a grande diferença de McCartney para os demais. As canções parecem fazer parte da trilha sonora da vida de cada um. "The long and winding road" é uma delas. Clássica, fica mais densa ao vivo, com o piano de Macca, com a ajuda das imagens dos telões.

    No mesmo grupo de amigos, o fã que já tinha ido a Porto Alegre se surpreendeu com a inclusão de "Bluebird" e "1985" no roteiro. Era um dos sonhos ouvir as canções dos Wings, do álbum "Band on the run". Ali perto, uma jornalista marejou na romântica "My love". "Esta é para a minha gatinha Linda", explicou Paul, como de hábito. E isso mexeu com a admiradora. A emoção não era só por questão particular. O que a impressionava era a forma como o beatle ainda interpreta a música, depois de todo o sofrimento com a morte da ex-mulher, vítima de câncer.

    Se na blueseira "Let me roll it" Paul emendou tributo de responsa a Jimi Hendrix com "Fox lady", "A day in the life" arrancou aplausos na dobradinha com "Give peace a chance". Lennon estava presente mais uma vez. Podia ter sido no Rio o refrão da paz. Na arquibancada, um personagem soluçou com o tributo a George. "Something" foi das mais tocantes. Paul começa tocando ukelele, uma espécie de cavaquinho. Quando fez a passagem para o arranjo já conhecido - e o telão mostrava fotos de Paul com o terceiro beatle -, até um metaleiro chorou copiosamente na pista. Pouco depois, pulou sem parar em "Helker skelter", pedra fundamental do heavy metal. Por que tanta nuance? "I don't know, I.... don't know!", cantaria Harrison.


    Todo mundo sabe que em "Live and let die" há a fantástica pirotecnia de fogos. Nem assim o público deixa de se empolgar. Os takes rápidos da banda no telão, na velocidade da música, deram mais dinamismo. Momento de êxtase com a melhor música já feita para o agente 007. Coisa de cinema, e dessa vez de Fellini, foi ver o filho, com celular na mão, ligando para a mãe, no Rio, ouvir o "na...na-na-na-na-na-na" de "Hey Jude". A união de gerações faz a garotada pular abraçada dois degraus abaixo em "Day tripper". Ali perto também, a triste e bela "Yesterday", canção mais gravada e executada de todos os tempos no showbizz, realizava o sonho de outra fã.

    Devotos de Paul não faltavam. Os primeiros acordes de "Band on the run" levavam as mãos de um deles à cabeça, não acreditando no que acabara de ouvir. A canção do álbum de mesmo nome, da época dos Wings, remasterizado recentemente, é uma espécie de "Stairway to heaven" de Macca. Mas, segundo o farmacêutico e músico do Rio que pegou avião e táxi para ver o inglês, a escada para o céu foi ouvir "Ob-la-di, ob-la-da", música que o beatle incluiu pela primeira vez em seus shows. E, ao encontrar a amiga de Curitiba no meio de uma multidão, sentiu, ao cantarem "Let it be", que naquela canção estava a essência daquele momento. Deixa estar, deixa estar...


    A senhora com o marido atrás não deixava mentir, repetindo o nome da música com o refrão: "Get back, get back, get back to where you once belonged", gritava, após ter se divertido num revival beatle com "I'm looking through you", "I've got a feeling", "Two of us", "Back in USSR" e "Paperback writer". A moçada na arquiba curtiu também bem antes "Mrs.Vandebilt", dos Wings, "Letting go", e as menos velhas "Highway", "Sing the chances" e "Dance tonight", dos recentes projetos, a última com direito a bandolim na canhotinha de Macca. Mas nada mais tocante do que o último bis. A emblemática "Sgt. Peppers", do álbum mais importante da história do rock, e a despedida com "The end", do "Abbey Road", faixa final da banda que deixa saudade até hoje, anunciavam: o sonho, de volta novamente, acabou após quase três horas de show. "Até a próxima!", gritou o beatle. Tomara.
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    Item Reviewed: De volta ao sonho Rating: 5 Reviewed By: Débora Thomé
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