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    terça-feira, dezembro 7

    Run, Forest!

    Na véspera da prova, a sentença: "Você lembrará do esforço do ano todo a cada passada; não tem calor que faça você desistir de conquistar a sua mandala com dignidade!". É, não basta ser personal. Tem que ser treinador, criativo, amigo, paciente e, às vezes, terapeuta. Não deu outra. A orientação era esquecer o tempo e correr o que desse. Não valia caminhar, não valia desistir. Eram os 5k ou nada.

    A grande dificuldade nem seria o percurso. Também não seria baixar o tempo. Pra variar, até as dores tinham dado uma folga. Meu inimigo real era o calor. Quebrando em treino desde que a temperatura estivesse um pouco mais elevada, não sabia o que seria de mim numa prova de verdade. Quanto mais o dia da Etapa Verão se aproximava, mais dava medo. O climatempo.com virou meu vício.

    Para meu desespero, a previsão era de tempo nublado. O que significava que deveria fazer um céu de brigadeiro e um calor senegalês em pleno Aterro do Flamento. Dito e feito. Cedinho já dava para sentir o drama. Dopei a lombar e os joelhos com um jato caprichado de diclofenaco dietilamônico (também conhecido como Cataflan), uma joelheira em cada perna (porque seguro morreu de velho) e algumas voltas de esparadrapo nos dedos dos pés, onde já sei estar propensa a bolhas. Treino também serve pra essas coisas...

    O sonho era fazer 10k na última etapa do circuito. O treinador recomendou cautela: "Pra que a pressa?!" Melhor assim. A sorte é que ele manda, eu obedeço. Afinal, treino é treino, jogo é jogo. E minha performance nos dias mais quentes é muito aquém da obtida na esteira, em ambiente refrigerado. Ai, que saudade das academias dos anos 1980... Deixemos para dobrar o percurso em 2011. Whatever...

    Chegamos ao Aterro do Flamengo, na altura do Monumento aos Pracinhas, por volta das 7h20. Já um pouco tarde. E nada de vaga pro carro. Saí em disparada para pegar o chip da equipe. Tinha cinco na minha responsabilidade! Disparei pro lado errado; a (des)organização do evento mudou o local da tenda de entrega bem na última etapa. Umas gracinhas! No meio do povaréu encontrei com a Dani, também meio perdidona. Na verdade, foi ela que me encontrou. Mas isso não importa, porque nos perdemos de vista na retirada do chip. Gente demais ali, poucos atendendo, fila, demora. Fail total...

    E ainda tinha que encontrar o treinador, a barraca da equipe, minha mãe e Márcio, Martinha e Waltinho, que eu tinha abandonado pra buscar o chip. Mas essa parte até que foi rápida. A essa altura, o pelotão Quênia já tinha largado. Perdi a confusão na pista, que soube ter acontecido só pelo twitter. Uma melecação só. Gente invadindo pelotão de elite, nego espremido na grade de proteção da pista, caindo e tudo mais. A Dani, minha amiga que largou logo depois das 8h, disse que teve que correr na grama um bom pedaço, de tanta gente que tinha pelo caminho. Uma zona.

    Quando partimos pro portal, os primeiros colocados já tinham chegado há algum tempo. Surreal. A boa notícia é que largamos na maior tranquilidade, meia dúzia de gatos pingados por ali. Estava combinado que dessa vez eu correria sozinha. Depois do tradicional "bora, bora, bora", meu treinador saiu em disparada, com seu pace de 4,42 me fazendo perdê-lo de vista antes dos 500 metros, certamente. Deixei os caminhantes para trás e segui na minha corrida solo. Eu e Deus.

    Não enfrentei muito engarrafamento humano com o meu turtle pace. Fui buscando sombras e concentrada em manter o ritmo. Usei todos os truques que me ensinaram. O que funcionou melhor foi o de escolher algum corredor (lento, de preferência) à frente e ultrapassá-lo. Fiz o primeiro quilômetro em um tempo normal e fiquei feliz. Faltavam mais quatro. Logo depois do segundo quilômetro, o posto de hidratação parecia um oásis. Um copinho em cada mão, joguei o conteúdo de um deles inteirinho na cabeça. O outro durou mais um pouco, para pequenas goladas e um novo banho.

    Fiquei prestando atenção à outra pista. Pelos meus cálculos, o treinador passaria por ali em 4, 3, 2... Ele fez sinal, com a mão, para eu acelerar. Não me surpreendeu. Já tinha chegado à bifurcação dos 10k, o que significava que a curva dos 2,5km estava bem próxima. Mais fresquinha, apertei o passo, para aproveitar aquela pequena melhora. Só que a placa dos 3km não chegava.

    Dei uma olhadinha para trás. Já tinha passado bastante do retorno. Cadê a porra da placa?! Olhei para frente, já chegava outro posto de hidratação, o que significava que eu tinha me distraído com alguma coisa e passado do terceiro quilômetro. É, já estava quase no quarto. Mas, em vez de me animar, essa constatação me desesperou. Era mais ou menos nessa altura que eu vinha quebrando nos treinos, um pouco depois dos 3,5km. Quase uma maldição.

    Tentei ficar calma. Comecei a procurar o Márcio na pista da esquerda; ele deveria estar perto. Vi o Waltinho e a Carla fazendo um "pega". O meu amor estava uns metros atrás. Acenei. Ele riu e jogou um beijo. Aquilo me renovou. O segundo posto de hidratação também. Mais dois copinhos e eu chegaria viva ao fim da pista.

    Ali já estava mais confuso. Tive que parar de correr para pegar água, porque neguim tava escolhendo copinho gelado. Pô, perguntar se a água tá fresquinha no deserto é muito mimimi, né não?!

    Mais um banho. Fiquei imaginando como é que essas patricinhas correm maquiadas. Não dá! Só mudei o rumo do pensamento porque a água escorreu por um lugar onde não deveria. Olhei para baixo, minha calça estava ensopada. Ah, que se dane! Dei duas goladinhas no outro e tomei mais um banho. Me arrependi de não ter outra mão, porque 100 metros depois a pele do braço já estava seca, pegando fogo. Devia ter passado mais protetor solar...

    De tanto pensar besteira, a missão já estava quase acabando. Já tinha passado sob a passarela e já conseguia ver as primeiras tendas. Tinha bem mais gente na pista dos 10k. E sombra. Pensei em invadir, mas daria trabalho. Desisti no mesmo instante. O lado dos 5k começava a ficar confuso. Muita gente andando. Andando não, passeando. Aí, é foda. Só porque a camisa é bonitinha?! Que saco. Quer participar, pelo menos caminha em ritmo de prova, cacete!

    Avistei a placa de 4km à esquerda, mais à frente. Faltava pouco. Será que dá pra acelerar? Olhei para a direita, tinha muita gente vendo os corredores passar, incentivando. Alguns respiravam pesadamente. Pesadamente até demais. Assustadoramente, eu diria. Voltei a me concentrar na pista e vi o treinador voltando pra me buscar.

    A primeira pergunta:

    - Como está aí?
    - Quase morrendo...

    A segunda pergunta:

    - E a frequência?
    - Em 93%... vou ter um treco nos próximos 100 metros!

    A boa notícia é que eu ainda aguentava falar. Correr, que é bom, quase nada. Passei pela placa de 4km já com um pouco mais de 34 minutos, meu melhor tempo até então. Com 93% de frequencia, não dava para arriscar tentar aumentar a velocidade. Ainda mais naquele calor dos infernos. Foi quando vi o portal.

    E o maluco do treinador fazendo fotos do meu sofrimento extremo. Fotos que não vi até agora...

    Olhei para os lados, procurando minha mãe, não achei. Veio a ordem, logo que passou a placa de 500m:

    - Abre a passada, abre a passada! Bora, bora, bora...

    Foi o que fiz. Eu obedeço, vocês lembram? O resultado é que as placas de 400m, 300, 200 começaram a chegar mais rápido e, quando dei por mim, já estava na hora de apertar o botão vermelho do meu frequencímetro: 39'28. Tinha acabado.

    Meu pior tempo do ano, minha maior superação.

    Mais dois copos de água.

    Mais fotos.

    Mais água.

    Comi até banana, para vocês terem uma ideia da situação.

    Odeio banana...
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    Item Reviewed: Run, Forest! Rating: 5 Reviewed By: Débora Thomé
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